Da Cadeira de Tortura ao Enxaguante Bucal: A Medicina Absurda do Século XIX

5–8 minutos

Imagine entrar em um hospital sabendo que a sujeira no jaleco do seu cirurgião é o
principal indicativo de sua experiência, e que a rapidez do corte é sua única
salvação contra uma dor insuportável. Bem-vindo à medicina do século XIX.

Hoje olhamos para os hospitais como templos de biossegurança, tecnologia e assepsia. No
entanto, há menos de dois séculos, cruzar as portas de uma enfermaria era, para muitos, assinar
uma sentença de morte. A transição daquela medicina agonizante e empírica para a ciência
estruturada que conhecemos hoje é repleta de episódios bizarros, personagens excêntricos e
descobertas revolucionárias que moldaram os pilares da saúde pública moderna e da
odontologia.

I. Robert Liston e a Era dos Cirurgiões Express

Antes do advento dos anestésicos eficazes, a principal virtude de um cirurgião não era a
delicadeza, mas a velocidade. Nesse cenário, o escocês Robert Liston (1794–1847) destacou-se
como o cirurgião mais rápido de sua época. Operando em anfiteatros lotados de estudantes e
curiosos sob o comando clássico de “Marquem o tempo, senhores!”, Liston conseguia amputar
uma perna inteira em menos de três minutos — e, em casos extremos, em impressionantes 30
segundos.
Contudo, a pressa em uma era pré-tecnológica cobrava o seu preço. O caso mais famoso
associado ao seu nome relata uma cirurgia com impressionantes 300% de mortalidade: ao
amputar a perna de um paciente em velocidade recorde, Liston acidentalmente cortou os dedos
de seu assistente e rasgou a casaca de um espectador. O espectador, acreditando ter sido
esfaqueado, faleceu devido ao choque; tanto o paciente quanto o assistente morreram dias
depois por infecções hospitalares generalizadas. Apesar do temperamento difícil e dos acidentes
grotescos, Liston operava por um senso de necessidade humanitária para reduzir a agonia do
paciente e acabou inventando ferramentas cruciais usadas até hoje, como a pinça bulldog e talas
para fraturas de fêmur.

II. Os Hospitais como Casas da Morte

Se a mesa de operação era um teste de sobrevivência, as enfermarias não eram melhores. No
início do século XIX, a medicina e a cirurgia eram carreiras totalmente distintas: médicos
frequentavam universidades para estudar teoria, enquanto cirurgiões eram vistos como
trabalhadores braçais de formação empírica. Os hospitais eram descritos como locais escuros,
mal ventilados e imundos.
Em grandes centros urbanos como Londres — que viu sua população explodir na Revolução
Industrial —, os pacientes acumulavam-se em salas apertadas onde fungos e larvas proliferavam
nos lençóis. O chão das salas de dissecação era forrado com serragem para absorver sangue e
pus, e os médicos transitavam livremente entre cadáveres e pacientes vivos sem lavar as mãos
ou trocar de roupa. Ter o jaleco manchado de fluidos corporais era motivo de orgulho acadêmico,
simbolizando uma carreira movimentada. O resultado inevitável eram taxas astronômicas de
sepse e erisipela.

CONEXÃO COM A SAÚDE PÚBLICA
Este cenário caótico evidencia como a ausência de uma visão epidemiológica urbana transformou
os hospitais em vetores de doenças em vez de centros de cura. O crescimento desordenado das
cidades exigiu o nascimento da vigilância sanitária e de uma reformulação completa da arquitetura
hospitalar e do saneamento básico.

III. A Corrida pela Anestesia: A Vitória sobre a Dor

Até meados da década de 1840, o alívio da dor baseava-se em métodos ineficazes ou perigosos,
como o uso de ópio, álcool ou o óxido nitroso (o “gás do riso”). A grande virada ocorreu na
odontologia e na cirurgia experimental através do uso do éter etílico. Embora o pioneiro
Crawford W. Long tenha usado a substância em 1842, foi o dentista americano William T. G.
Morton quem realizou a primeira demonstração pública de extração dentária e remoção de
tumor sem dor em 1846, em Boston.
A anestesia geral consolidou-se em larga escala quando a própria Rainha Vitória do Reino
Unido utilizou o clorofórmio para o parto de seu oitavo filho em 1853, chancelando a prática
perante a comunidade médica e a aristocracia mundial. Terminava, gradativamente, a era das
cirurgias baseadas na tortura física necessária.

IV. O Estranho Caso dos Dentes Explosivos

Um dos fenômenos mais bizarros documentados na literatura odontológica do século XIX
ocorreu em 1817, na Pensilvânia, quando um reverendo atormentado por uma dor de dente
lancinante ouviu seu próprio dente quebrar em pedacinhos com um estalo semelhante ao de um
tiro, trazendo alívio imediato. Casos idênticos foram publicados na prestigiada revista Dental
Cosmos nas décadas seguintes.
Qual era a explicação científica por trás disso? Na época, acreditava-se erroneamente que as
cáries cresciam de dentro para fora do dente e acumulavam gases internos sob pressão. Hoje, a
principal hipótese científica repousa na composição das primeiras obturações metálicas
rudimentares. Ao preencher as cavidades com ligas de metais diversos (chumbo, estanho, prata),
criava-se involuntariamente o efeito de uma pilha galvânica dentro da boca do paciente. A troca
espontânea de elétrons em ambiente úmido e deteriorado acumulava gás hidrogênio altamente
inflamável em cavidades mal vedadas, que explodiam sob o atrito ou calor.

REFLEXÃO ODONTOLÓGICA
Para nós que estudamos a evolução dos materiais dentários, este caso ilustra a importância crítica
da biocompatibilidade e das propriedades físico-químicas das ligas metálicas. O que parecia uma
epidemia misteriosa ou sobrenatural era, na verdade, física e química básica aplicada
erroneamente na cavidade oral.

V. O Dia em que os Médicos Aprenderam a Lavar as Mãos

A verdadeira revolução na sobrevivência hospitalar começou com o médico húngaro Ignaz
Semmelweis na década de 1840. Ao notar que a ala de maternidade atendida por médicos e
estudantes de medicina tinha uma taxa de mortalidade por infecção puerperal drasticamente
maior do que a ala gerida exclusivamente por parteiras, Semmelweis identificou o elo causal: os
médicos vinham diretamente das salas de autópsia para os partos. Ao exigir a lavagem das mãos
com uma solução de cal clorada, as taxas de infecção despencaram de forma imediata. No
entanto, sua teoria foi rejeitada veementemente pela comunidade médica da época, que se sentiu
ofendida com a sugestão de que suas próprias mãos carregavam a morte. Semmelweis foi
ostracizado e faleceu em um asilo.
Anos mais tarde, os estudos de Louis Pasteur sobre a Teoria dos Germes forneceram a base
científica necessária que faltava a Semmelweis. Inspirado por Pasteur, o cirurgião inglês Joseph Lister introduziu o uso do fenol (ácido carbólico) diluído para higienizar mãos, instrumentos e feridas abertas, reduzindo drasticamente as infecções pós-operatórias a partir de 1865. O protocolo deu tão certo que o nome de Lister acabou imortalizado de uma forma, digamos… bastante refrescante.

De 30 para 72 anos: Em meados do século XIX, a expectativa de vida mundial girava em torno
dos 30 anos, severamente limitada pelas infecções comuns. Hoje, ultrapassamos a média global
de 72 anos — um salto monumental que começou não apenas com remédios complexos, mas
com sabão, água limpa e a coragem de cientistas que desafiaram o status quo.


Capa da matéria da Revista Superinteressante (Edição de Maio/2024), que inspirou esta reflexão sobre a evolução da saúde pública

Referências:

Este artigo foi adaptado e inspirado na excelente matéria “A Medicina Absurda do Século 19”, escrita por Rafael Battaglia (Design de Luana Pillmann e Edição de Bruno Vaiano), publicada na Revista Superinteressante (Edição 463, Maio de 2024).

  • Livros recomendados pela matéria original:

    • Medicina dos Horrores, de Lindsey Fitzharris

    • A Fabulosa História do Hospital, de Jean-Noël Fabiani.

    • Medicina Macabra, de Thomas Morris.

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